
Não se passou muito tempo desde que ouvi uma afirmação que me fez repensar inúmeras coisas na minha vida.
Hoje, lembrando disso, repensei novamente. Resolvi compartilhar isso com mais pessoas do que esta que vejo refletida no espelho.
Uma garota, uns 5 ou 6 anos atrás, mencionou que havia se apaixonado por mim. Mas não do jeito tradicional. Ela havia se apaixonado pelos meus textos. Pelas minhas palavras. Pelos meus pensamentos.
Segundo ela, a atração se limitava a isto. Ela ansiava cada vez mais pelo que eu redigia e se deliciava quando enfim eu colocava algo em um dos meus antigos blogs, fotologs etc.
A garota em questão me escrevia e-mails religiosamente dois dias após cada texto postado. Enfase no religiosamente.
Esta relação, aos poucos, se transformou em uma troca de sentimentos, porque eu comecei a gostar de receber as expressões dela sobre o que eu havia redigido. Apesar de sempre declarar abertamente a sua “paixão” pelo que eu produzia, não se limitava a fazer elogios vazios e emocionalmente retardados. Muitas vezes me criticava, me corrigia, me cobrava por mais… E eu me apaixonei por isto também.
Entretanto, depois de um tempo, os e-mails pararam de chegar. O ciclo havia se quebrado.
Esperei, ansiando que apenas uma trivialidade fosse a responsável pela dissipação da magia que existia ali. Mas não era.
Desci do meu altar imaginário e a questionei sobre esta omissão.
Ela prontamente respondeu que eu não era mais o príncipe encantado que alegrava o seu intelecto com palavras de afeto e reflexões sobre o mesmo mundo que o seu. Meus olhos haviam mudado.
Repensando o caso, percebi que após muitos meses sem sequer encostar em meu espaço virtual, havia retornado à escrita logo após entrar na faculdade.
Aparentemente, após começar a lidar com a informação de uma maneira mais mercadológica e a escrita como apenas um meio de difundir tal produto, perdi algo que me tornava especial a ela.
Não mais redigia com o coração, usava apenas o cérebro para a tarefa.
Pode parecer figurativo, um pouco melodramático talvez, mas ela estava totalmente certa.
Acredito que após encontrar um modo mais literal de me fazer entender, sem querer, fui abandonando os caminhos mais metafóricos e emocionais da escrita.
Para mim, não existia mais amor. Eram somente duas pessoas carentes que se procuram para satisfazer suas necessidades. Não existia mais felicidade, mas sim alguns momentos de satisfação pessoal que permeavam entre a normalidade entediante da vida.
Por algum tempo esta visão monocromática de tudo serviu muito bem.
Hoje sou um jovem jornalista que aos poucos mostra o seu potencial profissional, ama seu trabalho e sabe que tem a capacidade para aprender, descobrir, presenciar e mudar muitas coisas.
Mas não é o suficiente. Eu quero voltar a escrever com o coração. E vou tentar fazê-lo.
Algumas vezes o tom será sério. Noutras, me permitirei não exigir tanto de mim e dos outros.
Vamos ver o que vai dar.
Vejo vocês por aí.
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